Vicente Lopes , ex vereador da cidade de Mossoró, foi preso, após ser eleito vereador, simpatizante pelo o partido comunista , por isso foi levado da sua casa diante da sua família e seus filhos menores daquela maneira, hoje considerado um dos heróis nacionais que não se entregou aos desmando dos golpistas .
frases de revolucionário , coloque a sua !!!
O tempo é o único bem totalmente irrecuperável. Recupera-se uma posição, um exército e até um país, mas o tempo perdido, jamais."
Napoleão Bonaparte
Napoleão Bonaparte
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Nunca ninguém elogiou a ditadura com tanto entusiasmo, denodo e servilismo como Mino Carta. E posso provar o que digo, é claro!
“Como é de conhecimento do mundo mineral, quem fez a VEJA, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”
A afirmação
acima é de Paulo Henrique Amorim, amigo de Mino Carta, e,
surpreendentemente, trata-se de uma verdade. Mino, com efeito, fazia o
que achava melhor. Seu patrão só ficava sabendo na segunda-feira. A sua
ditadura unipessoal na revista acabou no começo de 1976. A ditadura no
Brasil ainda duraria muito tempo.
Pois bem, as
novas gerações, especialmente os jovens estudantes de jornalismo, que
hoje eventualmente leem e ouvem Mino Carta conhecem pouco da história da
profissão. Não raro, seus professores se ocupam de proselitismo
ideológico raso e não incentivam a pesquisa. O material que destaco
abaixo é público. Está no arquivo digital da VEJA.
Na revista
de 1º de abril de 1970, Mino decidiu fazer um balanço dos seis anos de
poder militar no Brasil. A longa reportagem, com texto final de Elio
Gaspari e Luís Adolfo Pinheiro, era apresentada num editorial assinado
pelo então diretor de redação. Outros podem ter cantado as glórias do
regime militar, mas ninguém como Mino. Outros podem ter enxergado
virtudes no poder de farda. Mas ninguém como Mino. Outros podem ter
coberto os chamados “setores castrenses” de elogios e mimos. Mas ninguém
como Mino. Segue o seu editorial na íntegra. Comento depois.
Voltei
A essa altura, imagino muitos jovens “progressistas” mais irados que menino cagado, como se diz nos Pampas. Sim, este Robespierre da “imprensa nativa”, como ele costuma se referir aos demais veículos de imprensa, achava que os militares “surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção, nascidas e criadas à sombra dos erros voluntários e involuntários dos líderes civis”. Como vocês sabem, o “direitista Reinaldo Azevedo”, o Judas pronto a ser malhado pela esquerdopatia de salão, jamais escreveu ou escreveria algo parecido. Como não sou demagogo nem estúpido e prezo o estado de direito, não tento enganar incautos pregando, por exemplo, a revisão da Lei de Anistia.
A essa altura, imagino muitos jovens “progressistas” mais irados que menino cagado, como se diz nos Pampas. Sim, este Robespierre da “imprensa nativa”, como ele costuma se referir aos demais veículos de imprensa, achava que os militares “surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção, nascidas e criadas à sombra dos erros voluntários e involuntários dos líderes civis”. Como vocês sabem, o “direitista Reinaldo Azevedo”, o Judas pronto a ser malhado pela esquerdopatia de salão, jamais escreveu ou escreveria algo parecido. Como não sou demagogo nem estúpido e prezo o estado de direito, não tento enganar incautos pregando, por exemplo, a revisão da Lei de Anistia.
Quando
publiquei um outro texto demonstrando a verdadeira pena de Mino Carta,
alguns tentaram ensaiar uma defesa: “Não foi ele que escreveu! Era a
revista!” Errado! O que vai acima é um texto assinado. Ele, sim! Aquele
que mandava em VEJA e não permitia pitaco de patrão. Mino não precisava
que ninguém o forçasse a lustrar as botas do quartel. Ele o fazia por
conta própria, por gosto, por vocação, pela vontade de servir.
Mino ia longe. Enxergava o que ninguém mais alto do que ele conseguia enxergar. Leiam lá o que diz sobre os governos de farda: “E,
enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar
o país, a pátria amada, para sair de sua humilhante condição de
subdesenvolvimento”.
Sabem o que é
mais fabuloso? Mino continua fanaticamente governista hoje, como sabem.
A razão supostamente nobre que pretexta para ter aderido ao
lulo-petismo é justamente a dita luta do ApeDELTA para tirar o país do…
subdesenvolvimento!!! Já naquele tempo, como se nota, ele tinha esse
estilo que eu definiria como “contestação a favor do poder”.
A reportagem
A reportagem a que ele se refere, com texto final de Elio Gaspari e Luís Adolfo Pinheiro, também é um primor. Ali já se percebe a semente de um estilo que renderia muitas metáforas a um deles: assim como Lula é, nos dias hodiernos, o homem “do andar de baixo” que veio dar lições “ao andar de cima”, naqueles dias, esse papel era reservado aos militares. Querem ver?
A reportagem a que ele se refere, com texto final de Elio Gaspari e Luís Adolfo Pinheiro, também é um primor. Ali já se percebe a semente de um estilo que renderia muitas metáforas a um deles: assim como Lula é, nos dias hodiernos, o homem “do andar de baixo” que veio dar lições “ao andar de cima”, naqueles dias, esse papel era reservado aos militares. Querem ver?
Entenderam?
Era “a revolução que legitimava o Parlamento, não o Parlamento que
legitimava a revolução”. Os militares perceberam, como se informa acima,
que as intenções ideológicas dos políticos são sempre “escorregadias”.
Huuummm… Não deixa de ter lá a sua verdade. Quando vejo alguns áulicos
de hoje a demonizar a oposição, noto que o sestro é antigo. Este outro
trecho da reportagem é de uma fabulosa eloquência.
Ali se
mostra o danado esforço dos militares para construir uma “nova estrutura
política, econômica e social para o país”, sem transigir com os
“antigos inimigos”, a saber: “a corrupção e a subversão”. Mino Carta e
seus rapazes saúdam o fato de que, finalmente, existe uma política sem
políticos — nem mesmo aqueles que apoiaram inicialmente o golpe. Não se
trata apenas de uma reportagem exaltando o poder militar. Trata-se um
texto em favor da linha dura. Mino, como se sabe, é sempre muito
convicto. As ideias ficarão ainda mais claras no trecho que segue. Notem
que a tarefa dos militares é criar o desenvolvimento. E não estão para
brincadeira, não! Trata-se de gente séria, competente e trabalhadora —
não aquela bagunça do governo civil.
Mino,
Gaspari e a turma estavam empenhados em demonstrar que, finalmente,
havia gente de outra natureza no poder, muito distante da vigarice civil
e da baderna protagonizada por reles políticos. Estes, parece, eram
talhados para se servir do poder — os outros, ao contrário, eram
educados para servir. Que falem por si. Não precisam do meu auxílio. As
duas imagens devem ser lidas na sequência.
É claro que
há, sim, verdades no que vai acima quanto à formação e ao espírito dos
militares. A questão é saber se seu lugar é o governo. E me parece certo
que não. Assim como tenho a certeza de que também não é lugar de
larápios, de aproveitadores e de candidatos a caudilho. E, se restou
alguma dúvida quanto aos propósitos do editorial de Mino Carta e da
matéria feita sob o seu comando e a sua inspiração, o último parágrafo é
de um eloquência acachapante. Leiam. Volto para encerrar.
Pois é… A
gente nota os “velhos progressistas de esquerda de hoje” já em estado
larvar naqueles entusiastas do regime, não é? Afinal, os militares eram
“sensíveis aos problemas” nacionais porque oriundos das “camadas mais
pobres da sociedade”. Isso deve explicar a paixão pelo ApeDELTA. Golpe?
Nada disso! A gente aprende lendo o texto que “a classe política se
dividiu e naufragou por suas próprias limitações”. Quando os militares
decidissem entregar o cargo, haveria de ser a uma “classe política
renovada”.
Uau!!!
Encerrando
Os jornalistas, o jornalismo e as empresas de comunicação retratam o poder: noticiam, analisam, opinam… Mas têm de ter claro que não são — NEM DEVEM SER — o poder. É evidente que a imprensa estava sob severa censura em 1970, mas, já escrevi aqui, se era proibido criticar, não era obrigatório elogiar. Especialmente com essa ênfase e com argumentos saídos da mais profunda convicção antidemocrática.
Os jornalistas, o jornalismo e as empresas de comunicação retratam o poder: noticiam, analisam, opinam… Mas têm de ter claro que não são — NEM DEVEM SER — o poder. É evidente que a imprensa estava sob severa censura em 1970, mas, já escrevi aqui, se era proibido criticar, não era obrigatório elogiar. Especialmente com essa ênfase e com argumentos saídos da mais profunda convicção antidemocrática.
Mino Carta
se sentia a voz do poder em 1970 e se sente a voz do poder em 2012. No
passado, ele desqualificava os políticos — consumidos por suas ambições e
limitações. Nos dias de hoje, os adversários dos “representantes das
camadas mais pobres” são as forças de oposição e, claro, a “imprensa
nativa”, que ele adora satanizar. Sentia-se poder antes. Sente-se poder
agora. Ocorre que, para vestir esse figurino, precisa inventar para si
mesmo um passado de contestação, falso como nota de R$ 3. Alguém poderia
dizer que não mudou tanto assim. Hoje como antes, sempre aos pés do
poder. Hoje como antes, de braços dados com o autoritarismo.
Lamento
desfazer as ilusões de alguns moços, pobres moços! Mas também eles têm o
direito de saber o que eu sei. Sim, sim, há muitos outros “pogreçista” que cantaram as glórias do regime militar. O trabalho da minha Comissão Particular da Verdade mal começou.
Texto publicado originalmente às 5h53
sábado, 4 de maio de 2013
Quanto ao mérito, não há dúvida, ele meu Pai (VICENTE LOPES DE LIMA) foi perseguido e preso, merece a
indenização como também sua família , os filhos ainda pequeno assistindo uma cena como aquela, sendo empurrados para longe do seu próprio pai. Mas, fico recorrendo a um e a outro para ajudar nesse caso o processo tá com pedido vista para
analisarmos melhor o caso, com intuito de que os crimes que ocorreram no passado se tornem
de conhecimento público e não sejam apagados pelo tempo.
É preciso que as pessoas não esqueçam que esse Estado democrático de
direito que vivemos hoje se deve muito a essas pessoas, que pagaram um
preço muito alto, com prisão e tortura. É uma forma de a sociedade
reconhecer a importância dessas pessoas. E também para sinalizar para o
futuro que o Estado não é conivente com essas práticas, para que a gente
possa, cada vez mais, fortalecer o estado democrático no País"
Comissão da Verdade e Procuradoria decidem exumar corpo do João Goulart
Goulart morreu em dezembro de 1976 durante o exílio na Argentina.
A família do ex-presidente acredita que ele possa ter sido envenenado.
A Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul decidiram exumar o corpo do ex-presidente João Goulart (veja ao lado o vídeo do Jornal da Globo sobre o tema).
Goulart morreu em dezembro de 1976 durante o exílio na Argentina. A família do ex-presidente acredita que ele possa ter sido envenenado. O corpo de João Goulart está sepultado no cemitério de São Borja, no Rio Grande do S
O corpo do ex-presidente João Goulart, morto em 1976, será exumado, por decisão da Comissão Nacional da Verdade e do MPF-RS (Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul).
A despeito da versão oficial da morte de Goulart, por ataque cardíaco durante exílio na Argentina após ser deposto pelo golpe de 1964, a família do ex-presidente acredita que ele possa ter sido envenenado. O corpo de João Goulart está enterrado no cemitério de São Borja, no Rio Grande do Sul.
A advogada criminalista Rosa Cardoso, integrante da Comissão da Verdade, disse que os "indícios concludentes" de que Goulart foi vigiado no exílio pela "Operação Condor" (uma aliança entre as ditaduras do Cone Sul nos anos 1970 para perseguir os opositores dos regimes militares da região) sugerem, também, que ele pode ter sido assassinado por ordem da ditadura brasileira. A exumação deve confirmar ou não essa premissa.
Por enquanto, Rosa evita afirmações categóricas. "Nós temos que perguntar agora se já é possível que a comissão se posicione a respeito de um assassinato", disse. Mas, "como criminalista", afirmou que tem visto casos nos quais o Judiciário se pronuncia [pela condenação de criminosos] "com uma quantidade muito menor de indícios concludentes" do que os disponíveis na apuração sobre a morte de Jango.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Tortura nunca mais! Quem vai reparar os danos da alma dos torturados e seus
Fotografo não identificado e arquivo de Getulio Teixeira; década de 1960, Congresso de Vereadores em Recife. Da esquerda para a direita: vereadores Genesio Cabral de Lima [Major Santos] e Alfredo Teixeira; Djalma Maranhão, Prefeito de Natal, casal desconhecido, Virgílio Barbosa, por trás, Waldemir Limeira, Luiz de Brito, Nilton Paulino e José Horácio, todos vereadores. O prefeito Djalma Maranhão foi perseguido pela ditadura e morreu no exílio. Foi pura maldade contra um homem de bem!
Houve danos físicos e morais com a tortura e a morte de brasileiros. A extensão da tortura ainda não foi apurada. Milhares de patriotas brasileiros que buscavam um Brasil melhor para viver com seus filhos foram presos e torturados pela ditadura. É sempre bom lembrar que a ditadura foi da burguesia que usou as forças armadas e as forças policiais para o chamado “serviço sujo”, aquele de torturar e matar cidadãos brasileiros. Feriram de morte os acusados, os amigos e os familiares ao transformarem em párias estes patriotas que lutavam pelo bem comum. A extensão dos danos para filhos, pais, esposas e amigos ainda não foi apurado. Muitos deles já ficaram pelo caminho encontrando a morte em razão das doenças provocadas pelos sofrimentos. Outros agonizam ainda sem conseguir libertar-se do fantasma da perseguição, da tortura e do massacre físico e moral a que foram submetidos. É salutar que um tribunal do nosso país comece a reconhecer os torturadores e os seus comparsas. Tortura nunca mais! É esta a divisa para nós brasileiros. De Claudio Guerra para o baú de Macau.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
O grupo integrava 34 marinheiros da Organização Revolucionária da Armada, revoltosos do 08 de Setembro de 1936, grevistas do 18 de Janeiro de 1934 da Marinha Grande, 50 detidos da prisão de Angra do Heroísmo e ainda presos políticos até então dispersos por diferentes estabelecimentos de Portugal Continental.
No conjunto, os primeiros prisioneiros do Tarrafal tinham origem no escol das organizações de oposição, o Secretariado do PCP, a Comissão Intersindical e a Confederação Geral do Trabalho. A maioria dos prisioneiros tinha partido de Lisboa a 18 de Outubro, no paquete Luanda, que recolheu presos na Madeira e em Angra, chegando à ilha de Santiago a 29 de Outubro.
Criado por decreto a 23 de Abril de 1936, o campo de concentração do Tarrafal seria encerrado em 1954, mas reaberto pouco depois, com a eclosão da luta armada pela independência nos territórios africanos sob administração portuguesa.
O campo de concentração levou ao extremo a prática de tortura, destacando-se a severidade da "frigideira" - encarceramento nas celas fechadas de cimento, expostas ao sol. Das centenas de pessoas condenadas houve 32 que não sobreviveram.
Entre os mortos, contam-se Mário Castelhano, líder da Confederação Geral do Trabalho e director do jornal anarco-sindicalista A Batalha, e Bento Gonçalves, antigo secretário-geral do Partido Comunista Português. Entre os sobreviventes do Tarrafal somavam-se Edmundo Pedro, Joaquim de Sousa Teixeira, Josué Martins Romão, Sérgio Vilarigues e José Barata Júnior..
domingo, 28 de outubro de 2012
Memória da ditadura – Exclusivo: Dossiê aponta sevícias e assassinato de militante do PCBR
Por Denise Assis - do Rio de Janeiro
Ela nasceu no interior de Mossoró, no Rio Grande do Norte, na cidade de Martins (região serrana do Estado), em 9 de julho do ano de 1945. Recebeu o nome de Anatália, uma espécie de equívoco ortográfico, que evidencia a pouca escolaridade dos pais, ou do tabelião. Coisas do interior, de um Brasil tão diverso e gigante, que quando se diz Natália no Sul, ecoa no Norte como Anatália e assim fica sendo.
Logo, quando tinha apenas cinco anos, a família se transferiu para Mossoró, onde ela fez o curso primário, o ginásio e, por fim, cursou o científico, concluído em 1967. Trabalhava durante o dia, na Cooperativa de Consumo Popular, para estudar à noite. Em 1966, um ano antes da formatura, se apaixonou e iniciou namoro com um bancário, Luiz Alves Neto, emprego fixo no Banco do Brasil. Dava para se casar, e assim o fizeram, em 1968. Parou de trabalhar fora de casa, dedicando-se à atividade de costureira. A vida seguia sem sobressaltos, casa popular comprada pelo financiamento do Fundo de Habitação Popular do Estado de Pernambuco (FUNDHAP), louça e mobília.
Certo dia, em 1969, Luiz chamou-a para uma conversa séria. Precisavam deixar a cidade, onde ele se sentia mal visto. Anatália questionou, quis entender melhor a decisão da transferência repentina. Neto, porém, só revelou suas ligações com o PCBR e seu papel de liderança nas Ligas Camponesas na noite do embarque. Por decisão do partido, daquele dia em diante iriam para Pernambuco. Anatália vivia seu amor pelo marido e seguiu à risca as suas orientações. Ficou na casa dos pais o tempo suficiente para vender louça e mobília – com o que arrebanhou pouco mais de “um mil cruzeiros novos” – e esperou o aviso de seguir viagem ao encontro de Luiz.
Dez dias depois recebeu uma carta do marido, dizendo que estava à sua espera em Natal. Ela embarcou às seis da manhã e juntos seguiram para Pernambuco. Era dezembro de 1969 e Anatália partira para uma vida totalmente diferente da rotina pacata de dona de casa, que vivera até então. Agora atendia pelo codinome de “Marina” e dividia um “aparelho” com “Maia”- nome adotado por Luiz, seu marido -, “Alex” e “Adriana”. Anatália havia se transformado, por amor, em uma militante de esquerda. Aos olhos do governo militar de então, numa “terrorista”.
Muitos “aparelhos” depois, o casal foi designado para uma casa próxima ao Esporte Clube do Recife. A máquina de costura foi trocada pela de escrever. Os moldes para as roupas que costurava, por manifestos. Anatália podia não ter formação política, mas seguia à risca as orientações do marido e seu grupo, no enfrentamento ao regime militar. Na luta, foi adquirindo consciência do que se passava à sua volta. A movimentação da casa, sempre com, no mínimo, três moradores, no entanto, chamou a atenção da vizinhança.
No dia 13 de dezembro de 1972, o casal foi preso junto com o militante José Adelino Ramos, o “Lino”, detido em frente ao ponto marcado nas imediações da churrascaria “Gaiola de Ouro”. Os presos foram levados, segundo descrição contida em jornal da época, fornecida pela Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, para “local desconhecido”. Pode-se imaginar pelo que passaram até serem transferidos para a sede da Secretaria, o DOPS local, em 15 de janeiro de 1973, conforme o prontuário nº 38.216, daquela delegacia. Ali, depois de devidamente fichados e de darem entrada oficialmente como presos sob a custódia do Estado, voltaram a ser barbaramente torturados.
Anatália levava uma bolsa de couro marrom, arrematada por franjas, contendo uma carteira de trabalho falsa e uma identidade também falsa (nº 79.028), em nome de Maria Lucia dos Santos. Tinha, ainda, 20 cruzeiros e trinta centavos, e as chaves de casa.
Tamanho trabalho de “convencimento” os levou, a ela e o marido, a redigir, de próprio punho, depoimentos detalhados confessando suas participações nas atividades do PCBR. Não omitiram nomes, pontos, nada, rendidos pela ação violenta dos agentes e, talvez, por um rasgo de ingenuidade, de acharem que confessando estariam a salvo de novas jornadas de tortura. Luiz Neto escapou. Anatália, no frescor de seus 28 anos, 1,58m, bom corpo, bonita para os padrões da época, foi derrubada em uma cama de campanha, numa das salas da Secretaria, e seviciada até a morte.
Seu corpo foi entregue a um perito, que faz no laudo emitido, uma descrição, digamos, “olímpica”, do que viu no cadáver da jovem. O torso com equimoses, o pescoço com um sulco de três centímetros, evidenciando a esganadura e, o pior: suas partes pubianas com queimaduras que se estendiam até a altura inicial da coxa. O laudo descreve também hemorragia interna, nos órgãos do tórax e pulmões e conclui que Anatália morreu em decorrência de asfixia mecânica.
O delegado adjunto, Amauri Leão Brasil, responsável pela presa naquele dia, viu ali uma boa oportunidade de montar uma explicação que, a seu ver, era verossímil. Descreveu a morte da presa como “suicídio”. Aliás, não foram poucos, na época, a serem “suicidados”. Wladimir Herzog, é o mais emblemático deles, seguido do operário Manoel Fiel Filho e tantos outros que se “jogaram” sob carros pelas ruas das principais capitais do país.
Segundo a explicação do adjunto, à imprensa, que cobriu o caso sob censura, a presa teria usado a alça de sua bolsa – curtíssima, por sinal – encontrada presa ao seu pescoço para, em seguida ao pedido feito ao agente Artur Falcão Vizeu, para ir ao banheiro tomar um banho, se matar. O fato se deu às 17h20, no plantão do delegado adjunto. Segundo ele, Anatália foi encontrada morta no banheiro, de onde foi retirada para tentativas de socorro, na presença dos funcionários Genival Ferreira da Silva e Hamilton Alexandrino dos Santos, mas já estava morta.
Em uma das fotos feitas pela perícia no local, e contida no seu dossiê, a militante aparece de corpo inteiro, e há a seguinte legenda: “O cadáver jazia sobre uma cama de campanha, que se encontrava no interior do local em que funciona a Secção do Comissariado da Delegacia de Segurança Social da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública de Pernambuco”. Ou seja, muito próximo ao poder do Estado. Em dependências vizinhas à sala do delegado de plantão, e não no banheiro, conforme descreveu o Dr. Delegado.
Difícil, hoje, pela exaustiva quantidade de relatos de ex-presos, acreditar que durante sessões de tortura houvesse banho ou qualquer benesse desse tipo concedida aos presos. Ademais, o tempo, (20 minutos, descrito pelo carcereiro) não teria sido suficiente para criar a situação que a levou a falecer naquelas circunstâncias. Seu cadáver não estava atado a ponto nenhum, quando foi encontrado. E custa crer que alguém possa ter usado apenas as mãos para manter o laço da alça da bolsa retesado até alcançar a própria morte.
Observando-se uma das fotos tiradas pela perícia, e preservadas entre a documentação do Arquivo Estadual de Pernambuco, vê-se Anatália em posição de defesa, com uma das mãos à frente do corpo e a outra como quem afasta o agressor ou tenta se apoiar na parede. As fotos da região pubiana, porém, não deixam dúvidas. Ali se cometeu do modo mais literal e cruel a chamada “queima de arquivo”. Sua calcinha está descida e atearam fogo às suas partes genitais, numa tentativa grotesca de apagar os vestígios da prática mais comum entre os torturadores, contra as mulheres, na época: o estupro.
Para os responsáveis pela prisão e guarda de Anatália, pouco importou que ela já tivesse fornecido e detalhado todas as informações que eles queriam lhe arrancar. Anatália pagou com a vida o preço de ser mulher, jovem, bonita e, “subversiva”, como o aparato policial classificava os militantes de esquerda.
No dia 23 de janeiro daquele ano, poucos dias depois do fato, o delegado titular, Redivaldo Oliveira Acioly, corroborou a versão de suicídio engendrada pelo colega Amaruri Leão Brasil, enviando à 7º Circunscrição Juduciária Militar um ofício comunicando o “suicídio” da “subversiva” Anatália Melo Alves, vulgo “Marina”, e dando o caso por encerrado.
Luiz Alvez Neto cumpriu pena e foi anistiado. Anatália é nome de escola em Mossoró, e um prontuário amarelecido guardado no Arquivo Estadual de Pernambuco. Lá permanecem, ainda hoje, a sua bolsa de couro marrom, os documentos com nome falso de Maria Lucia dos Santos e as chaves da casa para onde ela jamais voltou.
Gota d’água
Em setembro de 1967, quando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) perpetrou a expulsão de um dos seus mais importantes quadros, Carlos Marighella, outros nomes de peso do partido, tais como Jacob Gorender, Apolônio de Carvalho e Mário Alves, decidiram que era hora de empreender um rompimento e fundar um novo partido.
De uma reunião em Niterói, com a presença de trinta membros, entre eles Flávio Koutizii, do Rio Grande do Sul, Hélcio Pereira Fortes, de Minas e Bruno Maranhão, de Pernambuco, saiu o núcleo de fundadores do PCBR. As conversas entre os insatisfeitos com o PCB continuaram e geraram uma fragmentação ainda maior, que deram origem ao PCdoB e à ALN, bem como outras dissidências.
Depois de inúmeras discussões que envolveram Maurício Grabois, João Amazonas e demais líderes, em um encontro acontecido em 17 de abril de 1968, num sítio fluminense, situado na Serra da Mantiqueira, a assembleia fundadora do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) se reuniu para montar o programa do partido. Estiveram presentes cerca de 25 pessoas, entre ex-membros do Comitê Central do PCB e delegados de base de vários Estados. O programa, um texto eclético, se baseou no esboço redigido por Mário Alves que condensou o pensamento das variadas tendências em vigar na época. Sua tentativa foi a de enlaçar a tradição doutrinária marxista, à pressão avassaladora pela luta armada imediata. Sua meta era a revolução popular, destinada a destruir o estado burguês e a conquista de um governo popular revolucionário.
Desde abril de1969, o PCBR se ocupou com operações armadas urbanas, essencialmente voltadas para a propaganda revolucionária. O acirramento da repressão no segundo semestre daquele ano obrigou o partido a reforçar sua clandestinidade e lançar operações mais ousadas. No primeiro assalto a banco feito pelo PCBR no Rio, teve início uma série de prisões que atingiram o Comitê Central, levando centenas de militantes para os porões da repressão. Segundo levantamento feito pelo “Brasil: Nunca Mais”, houve 31 processos referentes ao PCBR, somando 400 cidadãos atingidos como réus ou como indiciados nos inquéritos. (O episódio de criação do PCBR está bastante detalhado no livro de Jacob Gorender, Combate nas Trevas, da Editora Ática)
As Ligas Camponesas
Originalmente surgidas com a organização dos camponeses na Europa durante a Idade Média, no Brasil, as ligas camponesas são conhecidas como a associação de trabalhadores rurais que se iniciou no Engenho Galiléia, no Estado de Pernambuco, em 1955, a partir da reivindicação de caixões para os camponeses mortos.
O movimento ganhou força com a liderança do advogado e deputado pelo Partido Socialista, Francisco Julião, e teve amplitude nacional, empunhando a bandeira pelos direitos à terra e em defesa da Reforma Agrária. Julião aglutinou o movimento em torno do seu nome, conseguindo reunir idealistas, estudantes, alguns intelectuais e projetando-se como presidente de honra das Ligas Camponesas.
As primeiras Ligas surgiram no Brasil, em 1945, logo após a redemocratização do país depois da ditadura do presidente Getúlio Vargas. Primeiro, sob a iniciativa e direção do recém-legalizado Partido Comunista Brasileiro (PCB), quando camponeses e trabalhadores rurais se organizaram criando ligas e associações rurais em quase todos os estados do país.
Em 1948, no entanto, com a proscrição do PCB as organizações de trabalhadores no Brasil enfrentaram muita dificuldade para manter a mobilização. Entre 1948 e 1954, eram poucas as organizações camponesas que funcionavam e raríssimas as que ainda conservavam o nome de Liga, como a Liga Camponesa da Iputinga, dirigida por José dos Prazeres, um dos líderes do movimento em Pernambuco e localizada no bairro do mesmo nome, na zona oeste da cidade do Recife.
Em janeiro de 1955, com a criação da Sociedade Agrícola de Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco, a SAPP, localizada no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, (PE) houve o ressurgimento das Ligas Camponesas no Nordeste. A esta altura, as ligas deixaram de ser organizações e passaram a ser um movimento agrário, que contagiou um grande contingente de trabalhadores rurais e também urbanos.
Em agosto de 1955, realizou-se no Recife, o Congresso de Salvação do Nordeste, que teve grande importância para o movimento camponês, uma vez que foi a primeira vez no Brasil, que mais de duas mil pessoas, entre autoridades, parlamentares, representantes da indústria, do comércio, de sindicatos, das Ligas Camponesas, profissionais liberais e estudantes, reuniram-se para discutir abertamente os principais problemas socioeconômicos da região.
A Comissão de Política da Terra era composta por mais de 200 delegados, em sua maioria, camponeses representantes das Ligas.
As Ligas Camponesas expandiram-se para diversos municípios de Pernambuco e também para outros estados brasileiros: na Paraíba, onde o núcleo de Sapé foi um dos mais expressivos e importantes, chegou a congregar mais de dez mil membros. Rio Grande do Norte, Bahia, Rio de Janeiro (na época, estado da Guanabara); Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Acre e também no Distrito Federal, Brasília, foram outros pontos onde as Ligas tiveram papel de destaque em defesa dos trabalhadores rurais.
Em 1962, foi criado o jornal A Liga, veículo de divulgação do movimento. Com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, nesse mesmo ano, muitas Ligas transformaram-se em sindicatos rurais.
No final de 1963 o movimento estava concentrado nos estados de Pernambuco e Paraíba e o seu apogeu como organização ocorreu no início de 1964, quando foi criada a Federação das Ligas Camponesas de Pernambuco, da qual faziam parte 40 organizações, com cerca de 40 mil filiados no Estado.
Na Paraíba, Rio Grande do Norte, Acre e Distrito Federal (Brasília), onde ainda funcionava o movimento, o número de filiados era de aproximadamente 30 mil, congregando assim as Ligas Camponesas entre 70 e 80 mil pessoas na época.
Com o golpe militar de 1964, o movimento foi desarticulado, proscrito, sendo seu principal líder preso e exilado. O movimento funcionou ainda durante algum tempo, através da Organização Política Clandestina, que possuía uma direção nacional formada por assalariados rurais e camponeses, que se infiltraram em sindicatos agrícolas, passando a ajudar presos e perseguidos políticos.
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Eu sou MARIA NEUSA FERNANDES LOPES : FILHA COM MUITO ORGULHO DE VICENTE LOPES DE LIMA, preso na ditadura militar na frente de sua família , filhos sendo empurrado pra longe de seu proprio pai, seus pertencentes sendo invadidos e jogados (INVASÃO DE PRIVACIDADE HOJE... )